MANOEL GUEDES PINTO DE MELO

PATRONO DA FUNDAÇÃO EDUCACIONAL “MANOEL GUEDES”

       Vivemos em plena era da informática.

       O homem já saiu de seu mundo e pisou na Lua.

       Os “ônibus espaciais” já realizaram incontáveis viagens à estratosfera levando a bordo cães, ratos macacos, plantas, além do homem, como se fora pequenas “Arca de Noé” a flutuar na imensidão do universo.

       Vivemos a era da técnica.

       Tudo parece levar a crer que o homem, no afã de desvendar o desconhecido, só cuida do futuro desatento e mesmo esquecido do passado.

       Será isto verdade? Evidentemente, não.

       O homem substitui o homem pelo homem, sempre.

       As gerações se sucedem no tempo.

       Ninguém vive só do porvir.

       Todos temos um passado.

       Sempre haverá lições, sempre haverá exemplos, sempre haverá memórias pregressas a tangerem nossas ambições e projetos, por mais simples ou arrojados que sejam. “Mais importante do que salvar a realidade atual é salvar a Memória e a História de uma comunidade e ter o privilégio de, como educadores, podermos transmiti-las.”

       A Fundação Educacional “Manoel Guedes” confirma estas afirmações preliminares, cultuando o passado com os olhos voltados para o futuro.

       Através da evocação de Manoel Guedes, cuja vida e trabalho explicam o porquê de ter, como homenagem póstuma, seu nome vinculado a esta Fundação que pela legislação que a criou e lhe deu regulamento, tem, por objetivo, promover a educação e o desenvolvimento da cultura, criando e mantendo estabelecimentos de ensino, centros educacionais técnicos, tecnológicos e de pesquisa, biblioteca e meios de difusão do ensino, da cultura e da tradição.

       A Escola Dr “Gualter Nunes”, com sua atuação efetiva na área da saúde, é um dos efeitos da Fundação, e seus alunos, de hoje, como outros, de anos já vencidos, terão vivido o dia a dia de seus cursos e, posteriormente, de suas atividades profissionais, sem atinarem bem o porquê da Fundação chamar-se “Manoel Guedes” e sua escola denominar-se “Dr. Gualter Nunes”.

       Esses dois homens viveram noutros tempos e não são muitos os tatuianos que têm conhecimento da importância que ambos tiveram para a nossa cidade e região como personagens exemplares para saudável imitação.

MANOEL GUEDES – SEU PIONEIRISMO NA INDÚSTRIA

        Nascido aos dezesseis dias do mês de agosto de 1853, em Tatuí, Manoel Guedes Pinto de Melo, faleceu em nove de abril de 1927, com setenta e quatro anos de idade. Era filho de Martinho Guedes Pinto de Melo e dª Maria Alves de Lima. Martinho Guedes Pinto de Melo, de origem lusitana, fidalgo pelo nascimento e nobre pelo caráter, obrigou-se por divergências políticas a suportar as agruras de um exílio voluntário a dobrar-se a imposições que seu espírito altivo e que seus anseios de liberdade não podiam aceitar, escolheu para continuidade de seu projeto de vida a pequena Tatuí, no interior de São Paulo. Dedicando-se ao seu lar adotivo o mesmo carinho que o ligava ao berço de além mar, Martinho Guedes voltou suas vistas para o cultivo da terra, que amava como se nela tivesse nascido, sendo o introdutor de uma nova fase na economia agrária do país, com a cultura regional do algodão, transformando-se no exemplo que seria seguido por seu filho Manoel Guedes. Espírito ávido de iniciativas, sempre voltado para o bem da coletividade, Martinho Guedes não descansou sobre os louros, sonhando dar um passo à frente, com a produção industrial de tecidos, o que naquele tempo, era trabalho de artesanato e atividade doméstica. O destino, porém, não permitiu que o grande batalhador visse seu ideal cumprido em vida, Em janeiro de 1872, faleceu, quando contava com apenas 43 anos de idade.

       Manoel Guedes, jovem ainda, aos 17 anos, resolveu que havia de concretizar a vontade de seu pai, Martinho Guedes, de instalar em Tatuí aquela que seria a primeira fábrica de tecidos do Brasil. Tatuí se encontrava, por obra do denodado trabalho de Martinho Guedes, em pleno apogeu da cultura do algodão cuja cultura foi iniciada na Fazenda Pederneiras, tornando-se a maior produtora de algodão do país. Este “ouro branco” colhido em nossas terras ficou conhecido com “Algodão Tathuy”.

       Abandonando os estudos no Rio de Janeiro, voltou para Tatuí, passando a dirigir aquilo que seu pai deixara – um estabelecimento comercial, as culturas de algodão e cereais, máquinas de beneficiar e prensar o algodão.

       Assim, em 1881, Manoel Guedes organizou e criou a “Cia. de Fiação e Tecelagem São Martinho”, cujo nome homenageava seu pai. A montagem da fábrica deve-se exclusivamente ao seu pertinaz esforço e sua rígida determinação de realizar o sonho de seu saudoso pai.

       Para que melhor se estimem e se avaliem o nível do arrojo e o quanto de dificuldades e agruras passou Manoel Guedes na montagem da fábrica de tecidos, em Tatuí, é preciso que se lembrem estas situações daquele tempo:

               a) a maquinaria toda era de importação;

               b) havia transporte ferroviário só até Bacaetava, onde chegavam as linhas da antiga Estrada de Ferro Sorocabana, hoje FEPASA;

               c) de Bacaetava a Tatuí existiam apenas “caminhos”, que não chegavam a ser estradas, sequer. Pontes, pontilhões e leito carroçável eram incapazes de servir para a passagem e suporte de carga mais pesada.

       Assim, a adequação daquelas estradinhas vicinais, com o reforço de pontes e pontilhões, já era, por si só, uma epopéia de tenacidade. Mais de seis meses de árduo trabalho foram necessários para as máquinas chegassem de Bacaetava a Tatuí.

       Dentre as várias operações relacionadas com a montagem da fábrica de tecidos, estava a aquisição da “MAXABOMBA”. Sua chegada ruidosa à cidade foi um acontecimento.

       Mas, que era essa “Maxabomba”?

       Nada menos do que uma locomotiva a vapor barulhenta, para funcionar como motor fixo ou veículo-reboque para caminhar por sobre a terra, isto é, sem trilhos. Quatro rodas de ferro, com aros largos e lisos, apitava e resfolegava como as velhas máquinas, a carvão ou lenha, das estradas de ferro, capaz de transportar grandes cargas de lenha e sacos de algodão.

       Com a “Maxabomba” e mais carretas e carros de boi, foi possível, com enorme e inimaginável sacrifício, trazer os futuros teares da futura fábrica de tecelagem.

       Para a construção do prédio, até hoje existente, Manoel Guedes criou olaria e cerâmica, serraria e marcenaria, além de oficina mecânica completa e até mesmo sofisticada, como adiante se verá.

       Em 1881, o então jovem “MANDUCA”, como era apelidado Manoel Guedes, , com não mais que 54 teares e reduzido número de operários dava início à produção da Companhia Fiação e Tecelagem “São Martinho”.

       Tijolos, telhas, manilhas, madeira aparelhada – tudo se fazia para os empreendimentos de Manoel Guedes e por ele mesmo.

A excelente qualidade de seus produtos bem cedo ganharam bons e importantes consumidores, registrando-se que, da Cerâmica “São Martinho”, saíram manilhas para grande parte da rede de esgoto da cidade de São Paulo.

Com o tempo, outras indústrias foram surgindo por força do pioneirismo genial de Manoel Guedes: fábrica de óleo; fábrica de sabão; fábrica de correias de vários tipos, para movimentação de polias de novas unidades fabris que viriam logo a fazer de São Paulo o maior centro industrial da América Latina.

       “Manduca” era um investidor diversificado.

       De começo, suas máquinas eram acionadas pela “Maxabomba”, que também servia para as trações pesadas, ou por caldeiras a vapor, alimentadas por lenha.

       A movimentação da matéria prima e dos produtos ficava para os animais: carro de boi, carroças, carretões, tropas, cargueiros, lombo de burro...

       Manoel Guedes tinha uma mentalidade bastante avançada e logo percebeu que suas industriais que cresciam continuamente estavam devastando as matas próximas à cidade. O progressista homem, que fizera de Tatuí o centro de suas prestantes atividades, pressentiu que o desenvolvimento industrial pedia mais e mais o giro e crescimento das riquezas.

       Então, na Fazenda Vitória, situada entre Tatuí e Tietê, próxima a Cerquilho pela velha estrada do Guarapó, represou o Rio Sorocaba e construiu, pouco abaixo da lindíssima barragem, uma usina geradora de energia elétrica.

       Estava fundada a “Companhia Luz e Força de Tatuí” cuja energia produzida propiciava a preservação de nossas matas. A célebre “Maxabomba” deixava de circular.

       Energia para as indústrias, para a iluminação pública e domiciliar deste município e para os de Pereiras e Conchas era fornecida pela aludida empresa que, enquanto pertenceu ao complexo do velho Guedes, teve sempre modelar desempenho.

       E, 1° de janeiro de 1911 a luz elétrica foi ligada para a cidade de Tatuí, sendo uma das pioneiras no Estado de São Paulo.

       João Alfredo de Souza Ramos, estudioso da vida e da obra desse grande homem que hoje dá nome à Fundação Educacional, assim escreveu em trabalho publicado no ano de 1953:

       “Pela sua inteligência superior, pela sua capacidade realizadora e pelo sentido social de suas incitativas, Manoel Guedes Pinto de Melo tornou-se uma das maiores figuras da vida econômica de São Paulo e do Brasil. A minha admiração por esse homem não me cega, quando afirmo que a sua personalidade pode e deve ser comparada a de outros brasileiros ilustres, como Irineu Evangelista de Souza, Visconde de Mauá, cognominado o “Pai da Indústria Brasileira”. Como o grande Mauá, Manoel Guedes Pinto de Melo foi pioneiro em inúmeras iniciativas, que tiveram sempre por objetivo servir a uma boa causa, em benefício da coletividade.”

       Outro historiador, Humberto Bastos, em sua obra “O Pensamento Industrial do Brasil”, também citado por Souza Ramos na mesma divulgação, coloca “...Manoel Guedes Pinto de Melo entre os doze próceres da Indústria e das Finanças de São Paulo: S. Ford, Asdrúbal do Nascimento, Erasmo Assunção, Samuel Toledo, Rodolfo Crespi, J. A. Rubião, Francisco Matarazzo, Alexandre Siciliano e Pugliese.

       ” Manoel Guedes, surpreendido muito jovem com a morte prematura de seu pai, Martinho Guedes foi obrigado a abandonar os estudos no Rio de Janeiro para assumir os negócios de Martinho em Tatuí.

       Obviamente, não tinha nem experiência nem condições técnicas para os arrojos de seu talento empreendedor.

       Todavia, era suficientemente sagaz para a escolha dos homens que convocaria para levar a termo sua decidida vocação de criar e progredir. Dos Estados Unidos, da Inglaterra e do Brasil mesmo, trouxe equipes de auxiliares que se radicaram nesta cidade, trabalhando com ele, para ele, para Tatuí e para a nação.

       Para que se tenha um julgamento mais seguro do capricho do “Manduca” em tudo que fazia temos o registro de um episódio ocorrido pelos idos de 1920, quando do acidente com um avião em nossa cidade. Sérios danos materiais na aeronave e o seu conserto inteiramente feito na marcenaria e oficina da Fábrica São Martinho, pelo habilidosíssimo Jorge Mayer, chefe daquelas unidades. O pouso que aqui fizeram os irmãos João e Henrique Robba, aviadores que tinham em São Paulo uma das primeiras escolas para formação de pilotos aviadores civis do Brasil, foi efetuado em terreno impróprio:- o campo de futebol do antigo Pindorama Futebol Clube, no Alto da Santa Cruz. Resultado: quebra da asa e inutilização da hélice do aparelho.

       Com os pilotos nada aconteceu, além do aborrecimento de verem seu avião enormemente danificado.

Tomados de compreensível desânimo, receberam, fora o carinho da população, a promessa de Manoel Guedes e de seu filho Tomaz Guedes Pinto de Melo de que o aeroplano seria reparado pelos homens e pelo instrumental da Fábrica São Martinho.

       Promessa ousada, sem dúvida.

       Afinal, devolver-se condição de vôo para um avião – máquina desconhecida e melindrosa – era empresa inédita e perigosa.

       Transcrevemos a seguir a palavra do Dr. Otávio Guedes de Moraes que, em trabalho escrito para a Biblioteca da Prefeitura, aborda o assunto, com sua qualificação de engenheiro e aviador também:

       “... uma asa, se mal consertada, poderia partir-se em pleno vôo.

       E o conserto da hélice?

       Não era possível, pois a avaria era tão grande que só havia um remédio: construir uma nova.

       A hélice de um avião sempre foi o componente mais delicado. Ela trabalha em regime de alta rotação. Sua construção teria de ser de um rigor absoluto. As torções nas diversas seções da pá da hélice, conforme se vão afastando do centro de giro, exigem que sejam simétricas e rigorosamente iguais.Qualquer imperfeição em sua construção iria produzir enorme vibração no motor e até mesmo na estrutura do avião.”

       Jorge Mayer realizou o incrível trabalho. Refez a asa e fez hélice nova. Tudo testado pôde o aeroplano dos irmãos Robba voltar ao espaço das nuvens, levando, no re-batismo que teve, a inscrição “TATUHY” em sua fuselagem, homenagem e agradecimento dos irmãos aviadores.

       Perícia, competência, sofisticação de instrumental, confiança, audácia – tudo se espelha no acidente Robba e na solução provida. Competência de Mayer; qualificação da oficina e da marcenaria de que ele se valeu; confiança, no homem e na máquina, a justificar a audácia de Manoel Guedes ao prometer serviço de delicada e difícil execução, com conseqüência de risco muito grande.

       Assim foi o extraordinário “Manduca”, na indústria.

MANOEL GUEDES SEU PIONEIRISMO NA AGRICULTURA

       Café, algodão, mamona, cereais, frutas, invernadas ocupavam as terras do velho Guedes.

       Também nas atividades agropastoris foi ele um inovador.

       O arado, primeiro, o trator, mais tarde, foram novidades que trouxe para seu município.

       Estas foram as propriedades rurais de Manoel Guedes:

       Fazenda das Perdeneiras – café e frutas. A parte maior desse imóvel é, presentemente, o campo experimental da Ford.

       Fazenda Santa Maria, em Santa Adelaide, hoje pertencentes a netos de “Manduca”.

       O Taque Novo, fonte de água e mina de pedregulho, com que se calçavam as ruas de Tatuí.

       Proximidade e região do aeroporto tatuiano.

       Chácara do Bote, mais tarde sítio de Antonio Miguel, onde moravam o Bote e dª Palmira, avós de Osvaldo Del Fiol. Só frutas e hortaliças.

       Fazenda do Barro Preto – lá para os lados do viaduto sobre a rodovia Castelo Branco, no acesso de Tatuí. Criação de gado.

        Fazenda São Martinho, em Porangaba – café, milho, cereais, hoje pertencentes a José Carneiro, esposo de Margarida Guedes Carneiro, neta de Manoel Guedes.

       Fazenda Vitória, na estrada vicinal antiga, ligando esta cidade a Tietê – represa e usina de energia elétrica, no Rio Sorocaba.

       O algodão, para a Fábrica de Tecelagem, e a mamona, para a indústria de óleo, eram plantados em áreas diversas das várias fazendas. Nestas, além das lavouras permanentes, havia, para o trabalhador do campo, o sistema do “foro”. Com um aspecto peculiar do “Manduca”: ao foreiro, plantador da roça, ¾ da colheita. Para a Fazenda, ¼ restante.

       Souza Ramos, neste capítulo da agricultura, assim escreveu:

       “No início deste século, uma missão inglesa visitou o interior de São Paulo e, entre numerosas organizações rurais, percorreu as fazendas do dinâmico tatuiano. As palavras insuspeitas do relatório elaborado por essa delegação estrangeira, que não tinha nenhum interesse em elogiar ou condenar o que via, constituem depoimento definitivo e consagrador sobre Manoel Guedes Pinto de Melo, como agricultor.

       ” Falando das culturas de algodão que encontrara na zona, disse a missão que “a maior produção vista, foi na fazenda do Sr. Manoel Guedes, perto de Tatuí, chamada Pederneiras”.

       Referindo-se às safras de algodão, milho e feijão constadas, declara o relatório, textualmente:- “Tais produções são quase fenomenais e não se verificaram em nenhum outro lugar”.

       O documento registra, ainda, a admiração dos ingleses pelos moderníssimos métodos de rotação de cultura e pela prática da imunização de sementes, posta em execução por Manoel Guedes Pinto de Melo – o que é extraordinário, porque tudo isso foi feito numa época em que produtos e métodos hoje correntes estavam ainda no terreno da conjetura e do sonho.

       “Manduca” – Pioneiro na Indústria.

       “Manduca” – Pioneiro na Agricultura.

       Pioneiro sempre.

MANOEL GUEDES – UMA ECONOMIA SOCIAL

       Mas teria Manoel Guedes sido apenas um homem rico, igual a outros homens ricos, não mais que um afortunado somador de lucros ou de rendas parasitárias?

       Sob os aspectos sócio-econômicos, como foi Manoel Guedes?

       Vejamo-lo sob esse ângulo – o da expressão sócio-econômica de sua fortuna tão grande.

       Num olhar retrospectivo que se faça, numa observação panorâmica e cuidadosa de suas atividades multifacetadas, há de ver-se, de mais notável, seu pioneirismo na compreensão de que a riqueza só é verdadeiramente respeitável quando ela tenha um significado social efetivo.

       Não é estimável, para o povo, o tesouro do usurário que empresta a juros escorchantes, ganhando em cima das aflições dos aflitos.

       Válida, apreciada, realmente útil é a riqueza que se horizontaliza na distribuição de benefícios para a coletividade.

       Mais do que seus êxitos na indústria e na agricultura, o mais extraordinário desse homem de visão, foi sua indesmentida sensibilidade para os aspectos sociais da economia.

       É claro que o lucro é componente fundamental de qualquer empreendimento econômico. Não deverá, entretanto, o lucro empilhar-se egoisticamente na empresa ou no cofre do empresário.

       A reaplicação do ganho na criação de novas fontes de produção, gerando empregos, distribuindo-o entre os participes de sua feitura – os trabalhadores -, o permanente e seguro aperfeiçoamento das condições de vida dos assalariados, as reservas para fins previdenciários são partes, que devem sair do lucro, qualificando as fortunas que, estas sim, enriquecem o país. São as fortunas socializadoras. De participação.

       Homem de excelentes dotes de solidariedade, Manoel Guedes foi um bom.

       Sabia distinguir o paternalismo da caridade e caridade e paternalismo da participação, como direito, pela mais séria das leis, pela única lei, da época, que era sua consciência.

       Era espontânea e constante a preocupação do “Manduca” com a qualidade de vida de seus empregados. Assegurava-lhes boa moradia, assistência médica, estabilidade e armazém para suprimentos. Na farmácia e no armazém só se vendia pelo custo, não sendo permitido qualquer lucro, por pequeno que fosse. Eram unidades de atendimento. Não empresas comerciais.

       Conquanto fosse um homem positivamente inteligente, Manoel Guedes conhecia suas limitações.

       Daí sua norma de contratar, para as várias atividades de seu conglomerado agropastoril e industrial, técnicos de comprovados méritos profissionais para a saúde, para a construção, para a mecânica e marcenaria, para o abastecimento, etc.. Na área médica, por exemplo, trabalharam com Manoel Guedes, Dr Carmo Lordi, mais tarde professor emérito da Escola de Medicina de São Paulo da Universidade de São Paulo, Dr. Marcondes Machado que chegou à chefia do Serviço Médico Legal do Estado, Dr. Emílio Ribas, sanitarista emérito e cientista de fama internacional, cujo nome está perenizado no hospital da Avenida Dr. Arnaldo, em São Paulo.

       É importante ressaltar que, nos idos do fim do século XIX e início do século XX, o Brasil mal saía do regime da escravatura; não existiam sindicatos, nem legislação de proteção ao trabalhador. Maior se faz a figura de Manoel Guedes, como patrão e empresário precursor para quem o respeito mútuo e a cordialidade eram a tônica nas suas empresas.

       O requinte daquele fazedor de riquezas sociais pode ser exemplificado pelo tratamento dado aos animais de tração ou de montaria de sua propriedade que, conforme iam sendo substituídos pelos caminhões e tratores eram invariavelmente aposentados. Não se vendiam os cavalos e os burros. Não iam para o cepo do açougue os bois cansados do serviço.

       Era assim, em linhas gerais, o homem, o industrial, o precursor Manoel Guedes.

       Ele trouxe para Tatuí um dos primeiros, mais belo e luxuoso cinema do interior paulista – o Cine Teatro São Martinho, na Praça da Matriz. Lá se recebia constantemente conjuntos teatrais nacionais e estrangeiros, plantando, desde aquela época a admiração da nossa gente pela música e pelo teatro.

       Dele foi também, o segundo automóvel da cidade de São Paulo.

       Sua vida, seu comportamento ético, seu amor ao trabalho, sua singularíssima visão, o alto senso de solidariedade, expresso no sentido social de seus empreendimentos, explicam o porquê da homenagem que, depois, de morto, recebeu: FUNDAÇÃO EDUCACIONAL “MANOEL GUEDES”, idealizada por outro tatuiano de envergadura, o ministro do Tribunal de Contas de São Paulo, Dr. Nelson Marcondes do Amaral de cuja iniciativa e trabalho também nasceu a Escola de Enfermagem “Dr Gualter Nunes”, mantida pela Fundação e autor intelectual da APAE de Tatuí.

       Toda Tatuí conheceu e admirou esse homem, a sua capacidade de trabalho e de iniciativa, os seus sentimentos de bondade. Manoel Guedes foi rico, foi muito rico, mas nunca se deixou empolgar pelo dinheiro. Viveu tanto para si quanto para o proveito do próximo.

       O homem – diz Samuel Smiles – não vive só para si. Vive tanto para proveito dos demais como para proveito próprio. Todos têm deveres a cumprir, tanto o rico quanto o pobre. Para alguns a vida é um gozo, para outros é uma dor. Porém, homens melhores não vivem para gozar nem para ganhar fama. O que os move é a esperança de serem úteis a uma boa causa.” E Manoel Guedes soube ser, dentro de sua vida, sempre útil a uma boa causa, a muitas boas causas. Foi útil e extremamente amigo de sua terra. Foi útil e extremamente amigo da gente de sua terra. Foi sempre respeitado e querido.

       “Se nossa terra tivesse a ventura de possuir mais dois ou três gênios como Manoel Guedes, tivesse a ventura de possuir sempre uma linha de homens de sua estatura moral a velarem por ela, estaria certamente em um plano de extraordinária elevação.”

       (Texto compilado e redigido com base na palestra proferida por FERNANDO GUEDES DE MORAES, a 15 de maio de 1985 na sede da Fundação Educacional “Manoel Guedes”, de Tatuí, para alunos, professores e funcionários da Escola de Enfermagem “Dr Gualter Nunes”, mantida e patrocinada pela Fundação e autoridades e convidados presentes, assim como no livro “Biografias de Martinho Guedes Pinto de Melo e Manoel Guedes Pinto de Melo”, de autoria de João Alfredo Ramos, 1953, no folheto referente ao 8° Encontro da Turma da Sucata em Tatuí, em 1999, na “História e Memória da Fábrica São Martinho” elaborado como trabalho de conclusão de curso da Associação de Ensino Tatuiense, em 2004 e ainda em vários artigos de jornais de Tatuí, Sorocaba e São Paulo)